terça-feira, 3 de novembro de 2009

Adélia

Era um quarto pequeno, uma cômoda antiga de madeira escura, em cima um pequeno espelho ao lado de um vidro de perfume e um antigo porta retrato, a frente uma cama de solteiro tinha uma boneca de pano já gasta, a colcha de chita bem florida, combinava com o tapete redondo no chão e a cortina da janela. Onde Ela espera toda tarde para ver o crepúsculo anunciando mais um dia que esta para terminar, aquela claridade matinal sendo resumida num imenso circulo de fogo que lentamente vai penetrando o horizonte banhado de um oceano verde de cana- de- açúcar e quando o vento sopra mesmo que levemente balança toda a plantação como ondas no mar, fascinava Ela... Que espia da janela... Mais um sopro... Ela sente um leve arrepio ouriçando os pelos dos seus braços, os olha vê que seus poros estão espetadinhos... um sopro frio... E Ela inspira o mais que pode o ar enchendo profundamente os pulmões, segura por segundos e solta como se devolvesse ao tempo o sopro do vento... Percebe que do lado direito do canavial freneticamente as folhas da cana começam a mexer... “Ah!”... Agora do outro lado... Assusta-se, segura às portas da janela para fechar, porem a curiosidade é maior que o medo... Ela espera... “Ai! Um bicho?”... Fecha a janela, mas antes das portas se encostarem completamente ela vê por entre a fresta uma jovem de cabelos compridos ondulados escondendo-se por entre a plantação... “Ah?!” Ela abre bruscamente a janela... Nada... Ninguém... A sua curiosidade agora é ainda maior... As plantas balançam... A jovem reaparece correndo puxando o braço de um jovem alto, viril de pele bem queimada do sol... “Onde será que eles foram?” Olha o horizonte o dia caindo, o verde da plantação... “E eles? Cadê eles?” Esse misto de pavor e curiosidade a perturba... O jovem agora este de pé reclinado por traz da jovem que esta agachada como se, se escondessem de algo ou alguém... percebem que Ela da janela os olha e se encaram fixamente... os jovens olham-se entre si e correm desaparecendo entre o verde das plantas... “Será que estão precisando de ajuda?” “Ei... Ei”... nenhuma resposta, até o vento nesse momento parece estacionar... um silêncio assustador a perturba... seu coração acelerado... Ela apoiada com as duas mãos no parapeito da janela da um impulso e fica de cócoras parecendo um predador a espreita de sua presa... Quando então no meio do canavial surge um pontinho de luz, era o jovem balançando um candeeiro de um lado a outro em direção a janela... “Vem?! Vem?”... Ela dá uma rápida olhada para traz vê que a porta do quarto esta trancada, nem um barulho vinha do interior da casa, olha a sua estimada boneca e salta para fora da janela... corre... livremente corre por entre as folhagens ao encontro daquele belo jovem casal ... Quando Ela já esta bem próxima deles, eles começam a correr rapidamente e sorriem... “Esperem... Esperem!”... Ela pedia por entre sorrisos que a esperassem... “Vem” Corriam abrindo caminho em meio à plantação... “Prende a respiração no três!”... Ela não entendeu o que o jovem quis dizer... “O quê? O quê?”... Eles corriam mais... “um... dois... três...” Ela apertou com toda a força a mão dele prendendo o ar, sentiu que der repente o chão lhe faltará, por segundos estava flutuando em pura queda livre... caíram na água... Ela nem imaginará que tão perto de sua casa havia um riacho, a água estava morna e calma... “Cadê você? Ei... Estou sozinha?! Ei...” Ela sente uma pressão por dentro da água que foi vindo de baixo para cima... Ela mal consegue respirar... “Arh!” o jovem salta feito um boto em sua frente e esguicha água em seu rosto... Sorriam enquanto nadavam e brincavam como crianças... “Eu não sabia que tinha esse lago aqui tão perto da...” “Você fica ainda mais linda a luz da lua”... o jovem tira um mecha do cabelo Dela que estava cobrindo um olho e coloca atrás da orelha delicadamente, Ela acompanhou o movimento de sua mão reclinando um pouco a cabeça evidenciando o lado do pescoço, fecha os olhos lentamente e espera o beijo... ouvem latidos de cães... se assuntam... o jovem a puxa e nadam por baixo d’água até a beirada do rio... “Que foi? Que foi?” Ela estava ainda mais assustada por que o jovem estava muito tenso e o seu rosto transformara estranhamente... “Psiu! Eles vão nos encontrar”... “Quem? Que está acontecendo?”... “Psiu! Anda... anda”... andavam rapidamente Ela sendo levada por ele que a puxava fortemente pelo braço... “Você esta me machucando”... “Quieta”... “Quieta você quer que nos encontre?” “Quero voltar me deixe”... Ela estava cada vez mais confusa apavorada já não sabia mais se era bom pra Ela continuar assim... Os latidos ficaram ainda mais próximos deles, Ela pode ouvir passos de alguém que corria... “Estão se aproximando... Vem!” Correram... corriam o mais que podiam... As folhas da cana-de-açúcar passavam cortando machucando as suas peles... “Estamos fugindo do que? Fale? Quem é você? Quem é você?”... Ela queria resposta, mas só o silêncio... o jovem corria mais e mais... suas mãos estavam suadas e escorregadias... “Não! não vá embora, por favor,”... “espere, espere”... Eles corriam fugidos... de mãos dadas corriam cada vez mais rápidos... Ela já não agüentando freava os passos até não conseguir mais vê-los por entre o canavial... “Arh?!” Assusta-se com um apertão em seu braço abruptamente, uma vos muito grave e autoritária grita em seu ouvido, era um dos cabras que estavam perseguindo eles... Ela estava apavorada o cabra apertava fortemente mais e mais... “Porque você está fazendo isso comigo?” Ela olha para traz e vê nos olhos dele alguém estranhamente, assustadoramente conhecido... “Sua vadia... égua nojenta dos infernos”... entre gritos ele levanta um facão em direção a sua cabeça... Ela assustada aperta os olhos de medo e percebe que está ali o seu fim... o jovem viril reaparece por traz do homem com uma pedra na mão e bate com toda força entre a nuca e o pescoço do homem que cai no chão... Passa por cima dele estende a mão para Ela afim de que possam fugir... o Homem dá um brado mais alto que um mugido de touro... “Adélia!”... O jovem começa a entoar umas palavras estranhas e pede para que ela repita também... “Cabocla da mata, nossa guerreira, ajude-nos a sumir nessa fuga fagueira, que nenhum mal nos açoute, nenhum mal nos açoute”... Ela sente sua cabeça rodar... gira tanto e tão rápido... “Ah!”... Ela agora percebe que esta sentada em sua cama... “Ai meu braço!”... vê uma marca roxa e arranhões em seu braço... estranha... estranha toda aquela sensação... olha ao redor do quarto... levanta-se... vai em direção a cômoda... pega o porta retrato... as palavras ditas por aquele jovem ficou ecoando em sua mente... “nenhum mal nos açoute”... Parece que a imagem de sua avó agora lhe sorri... sua mãe havia colocado ali para que Ela não esquecesse que se chamava Adélia assim como sua avó.

( à minha Voinha Adélia... e ao antepassado perdido da minha família...)

2 comentários:

  1. Adélia e toda a nossa ancestralidade jamais será esquecida porque nós estamos contando sobre eles, uns aos outros e Aruandê, Luiza, Zahara e Vitinho também contarão aos filhos dos seus filhos.
    Adélia, salve ela!
    Beijos!

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  2. Andala, acho que daria um ótimo curta-metragem!
    vamos produzir para o próximo MEL?

    Parabéns flor!

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